O governo federal fez uma campanha publicitária para divulgar os valores da família, depois que fez “ O melhor do Brasil é o brasileiro “, (será ?), é oportuno ver como a nossa identidade nacional foi descrita nos versos do poeta Carlos Drummond de Andrade.
A questão, “quem sou EU?”, é uma questão que passa tanto por uma resposta relativa à identidade pessoal como pela identidade nacional. Quem sou EU, pergunta o leitor? E as respostas são tantas como são aqueles que me lêem. Sou um homem ou uma mulher, operário ou estudante, filho de Alzira e de José, solteiro ou casado,paulista, brasileiro e assim por diante. Para provar que eu, sou eu mesmo, o Estado exige que porte uma carteira de identidade com minha foto, data de nascimento, filiação, etc.
Se, às vezes, a questão da identidade ganha níveis de complexidade alarmante, seja para os que gostam de filosofar ou para os que estão mergulhados nas cavernas sombrias da sua psique, nos limites deste artigo ela se volta apenas para a questão da identidade nacional como foi vista dos anos 30 até os 80 do século XX. Logo no inicio de sua carreira, quando ainda vivia em Belo Horizonte, ele sintetiza a questão em versos deliciosos presentes em “Também já fui brasileiro”, “Europa, França e Bahia” e, em “Fuga.” Transcrevo alguns versos desta primeira fase:
Eu também já fui brasileiro/moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei Ford e apreendi na mesa dos bares/
Que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.
Neste primeiro verso o que temos é um Drummond que valoriza o elemento étnico, (moreno) e, que, por outro lado, brinca e ironiza o nacionalismo fascista que estava na moda e que era uma questão que dependia do horário de funcionamento dos bares. Ele apoiava, naturalmente, o Nacionalismo Cultural que havia se expressado na Semana de Arte Moderna de 1922. Conhecera e correspondia com Mário de Andrade e Heitor Villas Lobos que eram expoentes da Semana.
Em “Europa, França e Bahia” o poeta mostra que existe um “olhar” brasileiro sobre as coisas, e, sobretudo, como ele seleciona o que vê na Europa e na França. A esta altura do século o olhar não mais enfoca Portugal. Escreve:
“Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris, a Torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo….e a água suja do Sena escorrendo sabedoria….Chega! Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa (Hoje, ele escreveria, de Miami e New York)
…Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras/ onde canta o sabia.”
Em “Fuga”, os versos de Drummond revelam o grande conflito que sempre existiu entre uma elite branca e o resto do povo. A postura crítica do poeta é amarga e envergonhada: enfim, é uma infelicidade o ser brasileiro. De passagem ele também não deixa de criticar o mundo europeu no qual o brasileiro se espelha.
“Povo feio, moreno, bruto,
Não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
E todo mundo anda, como eu, de luto.”
Nesta primeira fase, parece muito clara esta ambigüidade drummoniana entre a aceitação ou a rejeição do ser moreno, e, também o modelo europeu que se colocava muito forte desde o período imperial, deslocando-se de Portugal para a França. Este modelo terminaria com a poderosa influência norte-americana depois da Segunda Guerra Mundial. Sob este aspecto, o brasileiro repetia comportamento similar ao do português do século XIX. Eça de Queiroz, nas crônicas que publicou entre 1880 e 1894, reunidas sob o título genérico de Cartas de Paris e Cartas de Londres, reverbera esta imitação do estrangeiro, mas que, para ele, seria uma tendência de todos os Povos. Escreve Eça :
“O mundo vai se tornando uma contrafação universal do Boulevard e da Regent Street. É o modelo das duas cidades (Paris e Londres) é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginiza, e se curva à moda francesa ou britânica, mais se considera a si mesma civilizada e merecedora de aplausos..
“(Ecos de Paris, pag. 8, Lello & Irmão, Porto, 1912. )
Neste sentido caberia questionar se brasileiros e portugueses não teriam uma identidade nacional suficientemente forte para, nas suas singularidades, resistirem a esta desnacionalização que hoje é mais global do que nunca.
No segundo momento, a temática drummoniana se centra na identidade tanto nacional como até municipal. A identidade brasileira, como a identidade de qualquer povo, é, na verdade, uma pluri-identidade enquanto ela se apóia na formação da consciência em vários níveis: o fato do sujeito, primeiro, pertencer a uma cidade, e depois, a um estado e a um país. Em “Brejo das Almas”(1934) e “Sentimento do Mundo” (1940) surgem dois poemas que demonstram esta estruturação. São eles “Hino Nacional” e “Confidência do Itabirano” (Drummond nasceu numa cidade mineira chamada Itabira). Mas a identidade que ele descreve será objeto de um segundo artigo.